>
Novo colóquio do Instituto Millenium com o tema “Impostos, Consumo e Cidadania” no Hotel Marriott, em Copacabana, RJ, dia 24/08/2010, às 08:30 am.
Para se inscrever: secretaria@institutomillenium.org ou 021-2220-4466
>
>Creio que a maioria das pessoas conhece a famosa música do Raul Seixas sobre a mosca da sopa. Tocada com um irritante zumbido de fundo, ela sentencia: “…você mata uma e vem outra em meu lugar”. Pois é exatamente assim que estou enxergando os e-mails hoje.
Para quem é professor, está se tornando virtualmente impossível responder, num prazo razoável, o volume colossal de mensagens vindas alunos, secretarias, coordenadores, assistentes acadêmicos, técnicos de laboratório, colegas de trabalho e um sem número de instâncias de poder que nos querem deixar a par até das mais ínfimas informações (que tal aniversariantes do mês, dia do índio e curso de gastronomia para mudos?). Soma-se a isso e-mails de amigos (convenientes e inconvenientes), conhecidos, ex-colegas, ilustres desconhecidos, familiares e o famoso SPAM.
Ontem fiz uma estatística simples. Recebi 147 mensagens em menos de 24 horas. Desse total, 112 eram SPAM. Embora elas sejam deletadas praticamente de cara, requerem alguns segundos de atenção para termos certeza de não estarmos jogando fora uma coisa importante. Os restantes (35) exigiam leitura e, destes, uma parte (28) exigia resposta. E desses que exigiam respostas, uns 19 demandavam a elaboração de um texto relativamente longo para os padrões de um e-mail.
Olhando só esse lote, não parece muito. Mas passe dia após dia, inclusive fins de semana, respondendo 28 e-mails complexos por dia pouco antes de dormir ou enquanto almoça para em pouco tempo a música do Raul Seixas fazer todo o sentido: por mais que nos esforcemos para que as mensagens sejam respondidas, estamos sempre em atraso, porque mal conseguimos responder as do dia anterior e já chegam novas mensagens demandando nossa atenção e resposta. E ai de você se atrasar dois dias. Lá vem o terceiro dia com seu lote de 150 mensagens, fora os alunos impacientes que mandam o mesmo e-mail de novo 48 horas depois. Se eu vivesse de responder e-mails ou bastasse que respondesse um “OK” ou um “Não, obrigado”, estaria tudo bem. Mas que tal um aluno que me manda um questionário com dez perguntas respondidas e me questiona se ele está no caminho certo? Isso é coisa pra 20 minutos, não dez segundos. Não é à toa que o Sindicato dos Professores de São Paulo (SINPRO) está levantando a questão desse trabalho subterrâneo não remunerado pelas escolas. Quando ele era uma fração pequena do todo, não havia como argumentar sequer sobre sua existência. Mas hoje, efetivamente, em determinadas circunstâncias, ele chega a ser MAIOR que o tempo dedicado à sala de aula presencial, especialmente em disciplinas de baixa carga horária (duas horas-aula, por exemplo). Então você ganha duas e trabalha quatro ou cinco – não está entrando nesse cálculo o clássico trabalho de corrigir e elaborar provas, preparar material didático, ler relatórios, preencher atas de faltas e notas, orientar estagiários, monitores e alunos de TCC e cia ltda.
Não sei ainda como lidar com essa enxurrada; creio que estamos na época de diagnosticar e caracterizar o problema.
Saíram dois artigos interessantíssimos que mostram como essas rotinas estão erodindo nossa capacidade de raciocínio, concentração e profundidade de pensamento, ambos coincidentemente publicados na mesma semana em dois jornais distintos:
A. FOLHA DE SÃO PAULO – “Abuso de aparelhos eletrônicos provoca conflito cerebral” Pode ser lido em http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/747236-abuso-de-aparelhos-eletronicos-provoca-conflito-cerebral.shtml
>
O ESTADO DE SÃO PAULO – “Concentração e distração”. Pode ser acessado em http://blogs.estadao.com.br/link/concentracao-e-distracao/
Parafraseando aquela velha expressão irônica que diz que “sua ausência preencheu uma lacuna”, creio que a sobrecarga de informação veio para nos fazer passar desnutrição intelectual.
______________________________________
Post scriptum - 22 de agosto de 2010
Inacreditável, mas hoje o caderno Mercado da Folha noticiou exatamente essa problemática do “trabalho subterrâneo”, que só cresce e não é remunerado:
http://www1.folha.uol.com.br/mercado/786931-celulares-e-computadores-portateis-prolongam-jornada-de-trabalho.shtml
>
>
……………No dia 19 de abril passado, a polêmica envolvendo a Igreja Católica e os casos de pedofilia envolvendo padres mostrou uma interessante imagem que parece circular sobre o papel do professor. Segue abaixo o trecho retirado da reportagem “Comunicação falha fragiliza legado de papa” publicada no caderno MUNDO da Folha de São Paulo. A visão colocada é de Thomas Reese, padre, jornalista e pesquisador da Universidade de Georgetown – EUA (trecho em destaque):
Site original: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/inde19042010.htm (acesso restrito aos assinantes do UOL)
>
>
……………O trecho grifado é muito interessante. A idéia que Reese faz de um professor é de alguém muito preocupado em utilizar uma linguagem correta sem prestar muita atenção às reações da platéia. Embora professores devam mesmo ter rigor e cuidado ao se dirigir aos alunos, a verdade (que todo bom professor conhece) é um pouco diferente. Talvez justamente o contrário.
……………Uma das características de um bom professor é precisamente prestar atenção à sua platéia, porque ele interage com ela e precisa saber se suas estratégias pedagógicas estão funcionando e se ele precisa mudar a rota para que o aprendizado efetivo ocorra. Não é trabalho fácil e nem sempre se consegue cumpri-lo a contento. Mas seguramente é uma das características ideais de um bom professor. Da forma como Reese colocou no seu texto, é o inverso, pois ele usou a imagem geral de professor como aquele que é um mero emissor muito centrado na mensagem e pouco centrado no receptor.
……………O tipo de professor sugerido pela declaração de Reese existe, mas não é (não deve ser) parâmetro para ninguém. Se for, corremos o risco de praticar o fabuloso ““Ensino presencial à distância““, como humoristicamente costumamos nos referir.