Arquivo da categoria ‘Educação e Senso Crítico’

Não é sempre que a imprensa noticia algo em tempo real em relação ao ensino superior. Essa me surpreendeu:

Para reduzir mensalidade, faculdades superlotam classes e laboratórios

http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20100907/not_imp606225,0.php

Sugiro a leitura da reportagem inteira. Eu discordo fortemente do consultor citado na reportagem, Ryon Braga. Para ele, não importa se a sala tem 50 ou 500, dá no mesmo. Uma primeira “sutileza” em relação a esse raciocínio: aulas práticas tornam-se inviáveis. Mas isso é café pequeno, já que é tão arreganhadamente evidente, que é muito difícil negar. Já com relação às aulas teóricas, pelo jeito ele deve considerar que uma aula é como a projeção de um filme em uma sala de cinema: aí sim, não importa se vc tem 50 ou 500 expectadores. Aula é algo muito diverso: é uma atividade interativa e de debate, com a administração do tempo e da participação dos alunos sendo parte importante para manter o ritmo e a coesão da aula; imensas platéias costumam distanciar o aluno do professor e torná-lo mais passivo - MESMO COM UM ÓTIMO PROFESSOR EM AULA. Isso é um comportamento de grupo. O ser humano se sente mais à vontade com grupos menores. E quando temos platéias imensas, as dúvidas se multiplicam na mesma escala a ponto de “travar” o andamento da aula. Alegar que isso é bom para o debate ignora o fato que a diferença entre remédio e veneno é a dose. Além disso, achar que 500 vão se comportar como 50 e o professor terá o mesmo controle sobre a sala é o mesmo que acreditar que quem violou o sigilo do presidenciável tucano foi ele mesmo, embora quem esteja na receita federal sejam petistas.

Achei péssima essa relavização do tamanho da sala e essa negação de que salas enormes sejam um problema - isso contradiz não só a minha experiência como docente, como a de todos os colegas com quem convivo e trabalho.

Alexandre Lourenço

Computadores e salas de aula

Hoje na Folha saiu uma matéria sobre o uso de laptops em salas de aula:
http://www1.folha.uol.com.br/saber/794261-uso-de-computadores-transforma-aulas-em-escola-da-zona-norte-de-sp.shtml

A matéria é instigante porque atesta que o uso dos computadores e da Internet potencializa o ensino, e é algo inescapável a curto prazo. Mas considero isso uma inovação incrível e que vai exigir muito mais preparação e agilidade mental dos professores do que o modelo antigo. Creio que não será mais possível um professor alegar (como muitos ainda o fazem) que não gostam desse “negócio de Internet e computador”. Os alunos em breve (se já não o fazem) vão olhar isso como um exotismo marciano. E mais…

Esses alunos de ensino fundamental e médio que sofrerem essa “imersão” na informática e em redes de conhecimento irão estranhar muito se o ensino superior não estiver usando os mesmos recursos no mesmo contexto. E não faltam maus exemplos a esse respeito: escolas que usam a Internet unicamente para lançamento de notas e faltas ou como depósito de conteúdo resumido. Já vi escolas que PROIBIRAM a utilização de QUAISQUER links externos à sua própria Rede, numa estupefaciante atitude que contradita a essência da Rede Mundial (o que mostra que a vida supera a arte: quem imaginaria que um gestor de escola tomaria uma decisão dessas?).

Talvez estejamos passando por problemas da Idade da Pedra, porque o principal problema está apenas começando: como administrar o tempo para que essas atividades sejam significativas e praticáveis? Visto de longe, programas como o Moodle são incríveis - estou neste instante tentando adaptá-lo ao meu uso - mas quando se pensa no número de alunos que chegam literalmente a algumas centenas por semestre POR PROFESSOR, é impossível aplicar mecanismos que demandam muito tempo de conexão por cabeça. Isso é algo virtualmente inexistente dos debates sobre aplicação de tecnologia no ensino. Já fiz vários cursos, participei de várias palestras e jamais ouvi alguém tocar nesse assunto. Única exceção: o sindicato dos professores do estado de São Paulo (SINPRO).

Pelo jeito a conversa está só começando…

Computador ensino 1 - Computador ensino 1

Alexandre Lourenço

Descanse em paz, Google Wave

Mais um modismo parece estar indo para a sepultura: o Google Wave. Quando ele surgiu, eu bem que procurei entender como ele funcionava para aplicá-lo nas aulas, mas, para começo de conversa, era necessário um “convite” para ter uma conta dele. Nunca consegui esse convite. Mas mesmo que tivesse um, teria sido uma infame perda de tempo: pelas descrições da imprensa, ele era terrivelmente complicado e burocrático, fazendo coisas que já eram realizadas facilmente com outros programas em uso. O resultado é que nunca encontrei quem o utilizasse. E agora ele dá os últimos suspiros:
http://blogs.estadao.com.br/link/o-que-aconteceu-com-o-google-wave/

Uma lição amarga que o Google deve ter tirado é que quando se burocratiza demais o uso de um software, ele se torna difícil e antipático (como dizem, é difícil ser fácil). E não pega. Curiosamente, ele é a antítese do próprio Google, que nasceu como um mecanismo de busca simples e limpo.

Isso mostra mais uma vez o aspecto agridoce das novidades tecnológicas do mundo atual: nascem como um modismo forte bombando em várias mídias para entrar em decomposição poucos meses depois, quando poucos se lembrarão dessas novidades. Caminho idêntico foi traçado pelo Second Life, que já foi tema de uma postagem aqui quando entrou em rigor mortis (http://blog.microbiologia.vet.br/2009/05/25/descanse-em-paz-second-life/)

Minha aposta há um tempo era que o Twitter ia pelo mesmo caminho. Por enquanto parece que errei nas minhas predições. Ele continua crescendo continuamente, embora eu o ache incrivelmente bobo (esta postagem será publicada nele, numa espécie de metacrítica cínica). Vamos ver o que o tempo reserva para esse Microblog macrosuperficial.

Alexandre Lourenço

Novo colóquio do Instituto Millenium


Novo colóquio do Instituto Millenium com o tema “Impostos, Consumo e Cidadania” no Hotel Marriott, em Copacabana, RJ, dia 24/08/2010, às 08:30 am.

Para se inscrever: secretaria@institutomillenium.org ou 021-2220-4466

Convite 5 coloquio - Convite 5 coloquio

Alexandre Lourenço

Morreu o poeta Roberto Piva

Faleceu hoje o poeta Roberto Piva. Ele foi meu professor no ginásio e não esqueço das redações malucas que ele dava para nós, e nem dos fantásticos livros que indicava (O Senhor das moscas, 1984, Freud, Gilberto Freire, contos de terror, poesias das mais variadas). Na época tinha um visual bem diferente: cabelão comprido e um óculos que parecia uma TV de 34 polegadas. Foi também o paraninfo da nossa turma. Há quase trina anos não o via.

http://www1.folha.uol.com.br/ilustrada/761522-poeta-roberto-piva-morre-em-sao-paulo.shtml

Alexandre Lourenço

Sobre e-mails e moscas


Creio que a maioria das pessoas conhece a famosa música do Raul Seixas sobre a mosca da sopa. Tocada com um irritante zumbido de fundo, ela sentencia: “…você mata uma e vem outra em meu lugar”. Pois é exatamente assim que estou enxergando os e-mails hoje.

Para quem é professor, está se tornando virtualmente impossível responder, num prazo razoável, o volume colossal de mensagens vindas alunos, secretarias, coordenadores, assistentes acadêmicos, técnicos de laboratório, colegas de trabalho e um sem número de instâncias de poder que nos querem deixar a par até das mais ínfimas informações (que tal aniversariantes do mês, dia do índio e curso de gastronomia para mudos?). Soma-se a isso e-mails de amigos (convenientes e inconvenientes), conhecidos, ex-colegas, ilustres desconhecidos, familiares e o famoso SPAM.

Ontem fiz uma estatística simples. Recebi 147 mensagens em menos de 24 horas. Desse total, 112 eram SPAM. Embora elas sejam deletadas praticamente de cara, requerem alguns segundos de atenção para termos certeza de não estarmos jogando fora uma coisa importante. Os restantes (35) exigiam leitura e, destes, uma parte (28) exigia resposta. E desses que exigiam respostas, uns 19 demandavam a elaboração de um texto relativamente longo para os padrões de um e-mail.

Olhando só esse lote, não parece muito. Mas passe dia após dia, inclusive fins de semana, respondendo 28 e-mails complexos por dia pouco antes de dormir ou enquanto almoça para em pouco tempo a música do Raul Seixas fazer todo o sentido: por mais que nos esforcemos para que as mensagens sejam respondidas, estamos sempre em atraso, porque mal conseguimos responder as do dia anterior e já chegam novas mensagens demandando nossa atenção e resposta. E ai de você se atrasar dois dias. Lá vem o terceiro dia com seu lote de 150 mensagens, fora os alunos impacientes que mandam o mesmo e-mail de novo 48 horas depois. Se eu vivesse de responder e-mails ou bastasse que respondesse um “OK” ou um “Não, obrigado”, estaria tudo bem. Mas que tal um aluno que me manda um questionário com dez perguntas respondidas e me questiona se ele está no caminho certo? Isso é coisa pra 20 minutos, não dez segundos. Não é à toa que o Sindicato dos Professores de São Paulo (SINPRO) está levantando a questão desse trabalho subterrâneo não remunerado pelas escolas. Quando ele era uma fração pequena do todo, não havia como argumentar sequer sobre sua existência. Mas hoje, efetivamente, em determinadas circunstâncias, ele chega a ser MAIOR que o tempo dedicado à sala de aula presencial, especialmente em disciplinas de baixa carga horária (duas horas-aula, por exemplo). Então você ganha duas e trabalha quatro ou cinco – não está entrando nesse cálculo o clássico trabalho de corrigir e elaborar provas, preparar material didático, ler relatórios, preencher atas de faltas e notas, orientar estagiários, monitores e alunos de TCC e cia ltda.

Não sei ainda como lidar com essa enxurrada; creio que estamos na época de diagnosticar e caracterizar o problema.

Saíram dois artigos interessantíssimos que mostram como essas rotinas estão erodindo nossa capacidade de raciocínio, concentração e profundidade de pensamento, ambos coincidentemente publicados na mesma semana em dois jornais distintos:

A. FOLHA DE SÃO PAULO – “Abuso de aparelhos eletrônicos provoca conflito cerebral” Pode ser lido em http://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/747236-abuso-de-aparelhos-eletronicos-provoca-conflito-cerebral.shtml

O ESTADO DE SÃO PAULO – “Concentração e distração”. Pode ser acessado em http://blogs.estadao.com.br/link/concentracao-e-distracao/

Parafraseando aquela velha expressão irônica que diz que “sua ausência preencheu uma lacuna”, creio que a sobrecarga de informação veio para nos fazer passar desnutrição intelectual.

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Post scriptum - 22 de agosto de 2010

Inacreditável, mas hoje o caderno Mercado da Folha noticiou exatamente essa problemática do “trabalho subterrâneo”, que só cresce e não é remunerado:

http://www1.folha.uol.com.br/mercado/786931-celulares-e-computadores-portateis-prolongam-jornada-de-trabalho.shtml

Alexandre Lourenço

Distorções sobre a visão de professor



……………No dia 19 de abril passado, a polêmica envolvendo a Igreja Católica e os casos de pedofilia envolvendo padres mostrou uma interessante imagem que parece circular sobre o papel do professor. Segue abaixo o trecho retirado da reportagem “Comunicação falha fragiliza legado de papa” publicada no caderno MUNDO da Folha de São Paulo. A visão colocada é de Thomas Reese, padre, jornalista e pesquisador da Universidade de Georgetown – EUA (trecho em destaque):

papa professor - papa professor

Site original: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/mundo/inde19042010.htm (acesso restrito aos assinantes do UOL)

……………O trecho grifado é muito interessante. A idéia que Reese faz de um professor é de alguém muito preocupado em utilizar uma linguagem correta sem prestar muita atenção às reações da platéia. Embora professores devam mesmo ter rigor e cuidado ao se dirigir aos alunos, a verdade (que todo bom professor conhece) é um pouco diferente. Talvez justamente o contrário.

……………Uma das características de um bom professor é precisamente prestar atenção à sua platéia, porque ele interage com ela e precisa saber se suas estratégias pedagógicas estão funcionando e se ele precisa mudar a rota para que o aprendizado efetivo ocorra. Não é trabalho fácil e nem sempre se consegue cumpri-lo a contento. Mas seguramente é uma das características ideais de um bom professor. Da forma como Reese colocou no seu texto, é o inverso, pois ele usou a imagem geral de professor como aquele que é um mero emissor muito centrado na mensagem e pouco centrado no receptor.

……………O tipo de professor sugerido pela declaração de Reese existe, mas não é (não deve ser) parâmetro para ninguém. Se for, corremos o risco de praticar o fabuloso ““Ensino presencial à distância““, como humoristicamente costumamos nos referir.

Alexandre Lourenço

A vida supera a arte

Hoje, numa reportagem da Juliane Silveira (”A vida como ela não é”) no caderno Saúde da Folha sobre séries médicas e o seu realismo - ou a falta dele, vi uma frase muito interessante do Mark Twain que não conhecia:

“Ficção tem de fazer sentido, diferentemente da realidade.”

Alexandre Lourenço

Forum da Liberdade em Porto Alegre

Vai ocorrer nos dias 12 e 13 de abril o XXIII Forum da Liberdade. Sediado neste ano na PUC do Rio Grande do Sul, é um evento que ocorre desde 1988 e promove debates sobre questões econômicas, políticas e sociais da América Latina. O endereço do evento para inscrições é http://www.forumdaliberdade.com.br/fl2010/


Ao que parece, nosso presidente foi vítima de um “Googlebombing”.

Googlebopmbing é uma estratégia usada por internautas para fazer com que um determinado endereço seja associado a uma palavra específica. Alguns anos atrás, isso foi feito com George Bush: digitado “miserable failure” no Google, aparecia a bibliografia do dito cujo. Uma forma bem humorada de protestar, sem dúvida.

No nosso caso, digitando-se a palavra “mentiroso” no Google, surge o verbete da Wikipedia para o Lula.

mentiroso lula - mentiroso lula

Dois comentários.

O Google adotou um interessante método de ranqueamento que se baseia na quantidade de citações de artigos do mundo da ciência. Esse método foi muito bem sucedido (o sucesso do Google se deve, em parte, a isso). No entanto, esse sistema pode ser adulterado, como fica claro com os exemplos acima. Se há uma associação que é, claramente, uma forma de protesto, nós até identificamos rápido. Mas e se alguém conseguir “bombar” um site vagabundo que seja de fato relacionado ao tema? Vai ser mais difícil para certa fatia do público perceber que houve uma manipulação.

Meu segundo comentário: adorei a brincadeira dos hackers. Isso mostra que há gente neste país indignada com o mar fecal de destruição de valores que o PT criou.

Mas cuidado, gente! O pessoal do PT é capaz de criar algum projeto para controlar a Internet e impedir que “informações inadequadas” cheguem à sociedade. Se alguém acho isso exagero, é bom ler o Programa Nacional de Direitos Humanos criado pelo atual governo. A vida supera a arte.

A notícia original foi publicada pelo estadão:
http://blogs.estadao.com.br/radar-politico/2010/03/21/hackers-usam-tecnica-para-relacionar-lula-a-mentiroso-no-google/

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