Arquivo de Outubro de 2009

Eu não ia comentar, mas o Reinaldo Azevedo fez considerações brilhantes sobre as escolas particulares a partir desse incidente da menina de minissaia na Uniban e a turbe furiosa que a ameaçou, mostrando que lá muita gente tem mais genes de Australopitecus do que Homo Sapiens. Não concordo com tudo o que ele diz (não acho que escolas públicas deveriam sumir), mas a sua análise sobre certas escolas privadas é uma intervenção cirúrgica. E pegou no nervo que quase ninguém quer mexer. Inclusive a imprensa. Leiam abaixo a postagem do Reinaldo e no final desta postagem o vídeo que mostra o grau elevado de educação e civilidade da “elite” emergente do país:


EXPANSÃO E BARBÁRIE
sexta-feira, 30 de outubro de 2009 | 17:14

Leiam primeiro um post abaixo. Uma estudante da Uniban, campus de São Bernardo, foi quase linchada, ou currada, porque usava um “vestido curto” — ia da escola para uma festa. Foi xingada, humilhada, filmada, exibida na Internet. Segundo seu testemunho, funcionários da universidade, até professores, a responsabilizaram pelo ocorrido. A síntese é esta: “Quem mandou usar vestido curto? Quem usa vestido curto está mesmo provocando”. Foi preciso a ação da polícia para que ela pudesse deixar o prédio. Vândalos chutavam a porta e pediam que a “gostosa” fosse entregue à massa.

A nova lei que pune o estupro não distingue a efetivação do ato da tentativa. Acho a lei toda atrapalhada — digo outra hora por quê —, mas ela existe. Se existe, quero saber se a universidade está empenhada em identificar os agressores para que possam ser processados. E seria até curioso, não? Porque, tudo indica, mulheres também participaram da barbárie. Não! Eu não quero saber quão curto era o vestido da moça. Ainda que estivesse nua!!! Ela que arcasse com a responsabilidade de transgredir os códigos daquele ambiente — que, suponho, mesmo abrigando linchadores, deve proibir a nudez, não é mesmo?

Demagogos das mais variadas colorações, incluindo aqueles que estão no jornalismo e suas submodalidades, saúdam a chamada “expansão” do ensino universitário no país. É evidente que não estou aqui estabelecendo uma relação de causa e efeito, a saber: não fosse a dita expansão, isso não teria ocorrido. Não! Isso acontece nos ambientes em que a ética não tem grande relevância; em que os membros do grupo não se submetem a um código de conduta; em que vigora a anomia e o salve-se quem puder.

Então, agora sim: o que vai acima define boa parte das ditas universidades brasileiras, em sua desordenada expansão, freqüentemente com o leite de pata do dinheiro público. Se eu escrevesse aqui que aquilo a que se assistiu na Uniban é “inaceitável” numa universidade, muitos poderiam indagar: “Mas seria aceitável em qualquer outro ambiente?” A resposta, obviamente, é “não”. Aquilo é inaceitável numa sociedade civilizada.

Mas, numa universidade, choca ainda mais. Esperamos de estudantes de terceiro grau que sejam especialmente tolerantes com a diferença. Afinal, aquele deveria ser um lugar especialmente dedicado ao estudo e à reflexão. Mas quê… A universidade brasileira, a bordo de algumas teses vigaristas — à esquerda e à direita, é bom deixar claro —, está se transformando numa espécie de supletivão para a conquista de um diploma. Não é só o conteúdo específico que é freqüentemente sofrível. Falta também apuro ético e moral. Isso é mais visível hoje em franjas do ensino privado de terceiro grau. O ensino público segue pelo mesmo caminho. É questão de tempo.

Não! Não estou satanizando o ensino privado — até porque sou contra universidade pública, qualquer uma. Estou lastimando, isto sim, é a baixa qualidade que marca essa expansão. Não se enganem: ocorrências como essa não são fortuitas; não estamos diante de uma explosão irracional de violência. Estamos diante, infelizmente, de um ambiente de baixo padrão ético; em que um candidato a estuprador insuflando outro candidato a estuprador não chega a caracterizar um comportamento chocante, fora do aceitável. Isso atinge todos os estudantes da Uniban? É claro que não! Mas a ocorrência se deu ali, com estudantes que estavam ali.

A Uniban tem de exibir as fichas dos candidatos a estupradores e tem de expulsá-los da universidade. Ou, então, estará dizendo à opinião pública que seus bancos comportam esse tipo de gente. Nesse caso, em vez de regulada pelo MEC, deve ser supervisionada pela Secretaria de Segurança Pública; em vez de diplomas de conclusão de curso, terá de oferecer folha corrida. Que a escola entregue primeiro os bandidos. O resto se vê depois.

Duas reportagens diferentes em dois veículos diferentes tangenciaram o mesmo assunto: número de alunos em sala de aula. E numa área que é muito difícil encontrar alguma literatura significativa: ensino superior - a maioria dos artigos científicos relacionados ao tamanho da turma centra-se no ensino fundamental ou ensino médio.

Primeiro, uma reportagem da revista Veja intitulada “Butiques de luxo“, sobre faculdades que possuem poucos cursos, alta qualidade de ensino e preços na estratosfera:

tamanho de sala de aula2 - tamanho de sala de aula2

tamanho de sala de aula3 - tamanho de sala de aula3

No destaque, “turmas pequenas“.

Agora outra reportagem que saiu hoje no Estado de São Paulo versando sobre as condições de ensino da USP e os problemas que ela tem enfrentado ao aumentar o número de alunos e diminuir o número de professores (“USP registra aumento de alunos mas número de professores encolhe”)

tamanho de sala de aula - tamanho de sala de aula

Faço minhas as palavras do professor José Álvaro Moisés. Esse trecho ilustrativo ressalta novamente algo que qualquer professor comprometido com ensino e com honestidade intelectual sabe: quanto maior a turma, pior o aproveitamento dos alunos. Infelizmente, as planilhas do Excel de certas escolas particulares não têm essa “sensibilidade”, e superlotam salas de aula como se fossem uma projeção de filme. Pra mim, classes com 120 alunos não são mais “ensino de massa”, mas “ensino de supermassa”: o intervalo entre as aulas não consegue dar conta do professor esclarecer uma fração das dúvidas dos alunos – ir ao banheiro ou tomar água se transformaram num luxo nessas condições (a não ser que o professor se recuse categoricamente a tirar dúvidas após a aula, o que é totalmente contraproducente).

Sou adepto do Estado mínimo, mas fica difícil defender isso quando vemos que, sem uma regulamentação pública, certamente haveria escolas com salas de 300 alunos tendo aula (só não há porque os cursos de graduação têm limitação no número de vagas).

Aos que quiserem arriscar uma garimpagem acerca do problema do número de alunos em sala de aula, sugiro o ERIC: http://www.eric.ed.gov/.

Saiu minha nova crônica na Versátil Magazine. Ela versa sobre transplantes de cérebro. Incrível que alguns leitores chegaram a acreditar que era verdade…

Para acessar, bastar entrar no link abaixo e buscar a página 42:

http://issuu.com/versatil.magazine/docs/vm12_site

Alexandre Lourenço

USP cai em ranking de universidades

Deu no Estadão de hoje. Lamentei a queda:


Instituição fica em 207° lugar; lista também cita Unicamp e UFRJ

Alexandre Gonçalves -

SÃO PAULO - Universidade de São Paulo (USP) não aparece mais entre as 200 melhores instituições de ensino superior do mundo no ranking elaborado pelo suplemento de educação do jornal britânico The Times, publicado anualmente desde 1971. No ano passado, a instituição estava em 196º lugar. Caiu para a 207º. Foi a segunda queda consecutiva. Em 2007, a USP atingiu sua melhor posição no ranking: 175. Leia mais cicando aqui.

Só conheci uma coisa que sacudisse as escolas para mudarem: ameaça de falta de alunos. Com o MEC instituindo corte de vagas (e portanto de pagantes) para as escolas que não cumprem as exigências mínimas de qualidade, creio que finalmente vamos ver as escolas se mexendo. Resta saber se essa política veio para ficar ou se é apenas espuma para ano de eleição.

mec uninove - mec uninove

Como diria o bom e velho agente 86, “Esse é o velho truque da sanfona envenenada…” Pois é isso mesmo. Velhos truques de manipulação de informação continuam sendo usados pelos políticos de plantão. Uma postagem excelente do Reinaldo Azevedo ilustra muito bem isso, ao expor a velha estratégia de distorcer a linguagem trocando o nome devido das coisas para manipular. Um recorte do texto:

Na correria, na pressa, Haddad houve por bem que era hora de acabar com os vestibulares das universidades federais, convidando todas as universidades públicas do país a fazerem o mesmo. Passar-se-ia a usar a prova do Enem como peneira para selecionar os alunos. Foi ovacionado por todos — aliás, Eremildo, o Idiota, foi um dos mais entusiasmados. Ruins de lógica, Haddad, Eremildo e a turma toda não se deram conta de que, decidido (como fez a maioria das federais) que o Enem seria a porta de acesso à universidade, o exame acabara de se constituir, por óbvio, num novo… vestibular!!! Antes que os “educólogos” gritem, peço que leiam bem o que escrevi: “novo vestibular” - ou, se quiserem, um “vestibular renovado”. Mas vestibular ainda assim.

Para acessar o texto inteiro, acesse http://veja.abril.com.br/blog/reinaldo/geral/enem-%e2%80%93-haddad-um-acodado-cheio-de-si/

É inacreditável a desenvoltura com que esse recurso é empregado (como é o caso) e mais inacreditável ainda como ele é aceito por parte das pessoas sem qualquer avaliação crítica - embora inacreditável MESMO seja ver supostos educadores caindo nessa. A propósito, estou lendo o livro de Victor Klemperer sobre a linguagem do Terceiro Reich (LTI – Língua Tertii Imperii) e está sendo muito instrutivo identificar as estratégias de manipulação e ver como a história se repete, numa magnitude diferente, claro, mas não muito diversa na sua essência. Assunto para uma postagem futura.