Arquivo de Maio de 2009

Alexandre Lourenço

Cartas

Sou um leitor habitual do João Pereira Coutinho, que escreve na Folha toda semana. Freqüentemente tenho pontos de vista em comum com ele e admiro a coragem com que escreve sobre coisas que quase ninguém mais aborda.

Na última quina-feira (26/05), seu artigo nem me chamou tanto a atenção. Mas no final dele, um Post Scriptum que retomava um tema anterior valeu a leitura: CARTAS (o trecho segue no final da postagem).

Sempre gostei de escrever cartas. Escrevi muitas durante boa parte da faculdade. Uma grande amiga minha foi especialmente prolífica: trocamos cartas mensais durantes anos falando de contos, poesias, existência, felicidade e outros assuntos menores. Mas com o advento da Internet e suas facilitações, as cartas simplesmente deixaram de fazer parte da paisagem. Escrevo hoje muito mais que antes, mas o produto perdeu qualidade e se tornou descartável. Dezenas de e-mails, mensagens do Orkut, torpedos, MSN e Skype. Mas tudo muito curto, rápido, etéreo. Ao desligar o computador, ou ao se empilhar toneladas de e-mails, as coisas perdem-se com incrível facilidade. Como é diferente ler um texto numa carta, onde se pode inclusive apreciar a letra da pessoa e seu estilo. E ela pode ser guardada e reencontrada, como ocorreu recentemente comigo, ao achar duas dúzias de cartas que sobreviveram aos fungos do meu armário (apesar de ter perdido também todas as fotos da faculdade por causa deles, não deixei de apreciar a beleza e o colorido de alguns).

Por isso foi um prazer especial ler o texto de Coutinho, lembrando das cartas e fazendo uma exaltação de suas qualidades únicas.

Como era gostoso olhar a caixa do correio e encontrar uma carta esperada - ou inesperada.


cartas - cartas

Alexandre Lourenço

Descanse em paz, Second Life.

Eu já havia escrito sobre o Second Life antes (http://blog.microbiologia.vet.br/2007/12/08/o-second-life-e-o-ensino/).

Minhas posições não mudaram quase nada sobre ele. A novidade é que ele é um morto insepulto:
http://oglobo.globo.com/tecnologia/mat/2009/05/25/veterano-do-second-life-conta-que-restou-daquele-universo-virtual-756015418.asp

Isso mostra a volatilidade dos modismos. Há dois anos, uma febre total; hoje, um corpo frio repousando sobre o mármore. E assim caminha a humanidade. Quem será a próxima? Desconfio que o Twitter. Até entrei nele como prova de boa vontade e como obrigação de professor para estar atualizado. Minha impressão foi pior ainda que quando entrei no Second Life. O bicho já ficou lá para trás.

Esta foi retirada integralemnte do blog do Marcos Guterman, do Estado de S. Paulo. É uma entrevista de Michael Palin, veterano do Monty Python, para a revista alemã Der Spiegel. Achei ótima a colocação dele de como o politicamente correto está acabando com o senso de humor:


Der Spiegel – Então o Reino Unido ainda é um lugar bom para um comediante?

Palin – Não, temo que estejamos muito perto de perder nossa atitude casual, infelizmente.

Der Spiegel – Como assim?

Palin – Terrorismo islâmico. Eu não conheço muita gente que fez piadas sobre a Al Qaeda ultimamente. As pessoas estão com medo.

Der Spiegel – O Monty Python poderia ter escrito algumas piadas sobre eles.

Palin – Sim, se o Python estivesse junto poderíamos ter bolado algumas idéias para um show. Como fazer um taleban ser candidato no “Quem Quer Ser Um Milionário?”, ou um tour da Al Qaeda, “Cavernas do Mundo”.

Der Spiegel – Por que vocês não fazem isso?

Palin – Bem, acabaríamos causando um debate como os dinamarqueses, que provocaram uma reação mundial por causa das caricaturas de Muhammad. O politicamente correto está intimidando as pessoas. E não falo só do terrorismo. Às vezes a impressão é que não se pode fazer piada a menos que se tenha lido as letrinhas miúdas. Mas isso não é possível. O humor tem de ser espontâneo. Rir é um tipo de coisa libertária. Espero que continue assim.

A página do blog do Marcos Guterman é
http://blog.estadao.com.br/blog/guterman/?title=a_crise_do_humor&more=1&c=1&tb=1&pb=1

Alexandre Lourenço

Mais um vídeo criativo dos alunos

Mais um vídeo criativo dos meus alunos me chamou a atenção. Eles custaram para ter coragem e disponibilizar no Youtube, mas agora, aí está! E o trabalho deles está excelente tanto por contemplar o conteúdo quanto pela criatividade. E pela motivação e envolvimento dos alunos, este modelo de trabalho se mostrou um excelente complemento tanto para a aprendizagem quanto para a avaliação.



Parabéns ao grupo: Beatriz, Mayra, Priscila, Rogério e Tamires!

Alexandre Lourenço

Abaixo a Wikipedia!

Mais uma vez em debate a credibilidade da Wikipedia.

Notícia publicada hoje no caderno Informática da Folha relata um teste feito por um estudante. O resultado não me surpreendeu. Pena ser pouco divulgado, ,pois em geral a imprensa costuma dar destaque aos pontos positivos da Wikipedia, e não aos problemas inerentes de uma colaboração caótica como é o seu caso:

Abaixo a wikipedia 1 - Abaixo a wikipedia 1


Essa notícia é um excelente pretexto para comentar a publicação do livro de Andrew Keen pela Zahar, O CULTO DO AMADOR. Eu já havia comentado sobre a edição em inglês dele, mas agora saiu a sua tradução em português:

o culto do amador - o culto do amador

Esse livro é um excelente crítica à Web 2.0 e a todos os seus deslumbrados entusiastas, para os quais democracia é isso: ao invés de dar chance das pessoas se qualificarem, arrasta todo mundo numa canetada para o grupo de “especialistas”, mesmo quem mal sabe escrever o português direito.

Pena não haver um jornalista com coragem suficiente para fazer uma singela e elucidativa pergunta a essa trupe populista: você se deixaria operar por um estudante de letras, ao invés de um médico?

Alexandre Lourenço

Entrevista de Gay Talese para a Ilustrada

Achei muito bem vinda a entrevista de Gay Talese na Ilustrada de hoje. Comentando sobre as dificuldades da imprensa tradicional e os meios digitais, ele sintetizou uma racionalidade lúcida que faz falta no debate aos deslumbrados com a Internet e aos relativistas culturais.

Este trecho merece destaque:

entrevista gay talese - entrevista gay talese


Isso me lembrou muito a situação que muitos colegas veterinários passam ao cobrar a consulta: muita gente pensa que, por se tratar de um animal, o tratamento deveria ser de graça, e ficam meio indignadas com a “ganância” do clínico. Talvez não tenha passado pela cabeça dessas pessoas que veterinários TAMBÉM pagam contas - luz, água, condomínio, plano de saúde, etc.. É muito fácil todo mundo querer tudo de graça, especialmente se vai ser beneficiado; mas raramente alguém diz quem pagará a conta. E na vida, não existe almoço grátis. Acreditar que vamos ter do bom e do melhor em termos de informação sem pagar nada e sem que ninguém seja remunerado é viver no país das maravilhas. Acredito que quem padece desse tipo de fantasia infantil deveria trocar de lugar no balcão: prestar um serviço gratuito para um monte de gente e depois tentar comprar um quilo de feijão.

A entrevista inteira de Gay Talese pode ser vista em:
http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u559328.shtml