Arquivo de Março de 2009

Alexandre Lourenço

Sobre o ofício de escrever

No domingo, na Folha, saiu uma entrevista com Mario Vargas Llosa acerca do escritor uruguaio Juan Carlos Onetti. Uma entrevista muito interessante e poética, que merece ser lida e guardada.

Talvez eu escrevesse sobre ela de maneira mais espontânea se não lembrasse que o foco do meu blog (por imposição minha) é a área da educação. Mas eu lembrei.

Então começo com um livrinho que li recentemente. Chama-se “Estimulando inteligência”, do professor Pierluigi Piazzi.

pierluigi piazzi - pierluigi piazzi

Comprei porque meu pai me havia dito que, em uma entrevista na televisão, ele pareceu extremamente lúcido e inteligente. Passando na Martins Fontes, dei de cara com ele e resolvi comprá-lo. Lido, ele está aquém das impressões que meu pai descreveu. Achei-o muito superficial, ora dizendo coisas que concordo (mas que no fundo são óbvias) e ora dizendo coisas que discordo - e deixando de dizer outras tantas. Resumindo: atirou pouco, acertou metade. Resta pouca impressão marcante de um livro que se mostra econômico demais no conteúdo (embora ele possa afirmar a seu favor que tentou fazer um texto acessível e sedutor ao público leigo; acho que a dose do remédio matou o paciente).

Mas há duas coisas boas do seu livro que se destacaram: o alerta sobre a falta de disciplina e respeito dos estudantes atuais e a ausência do hábito de ler entre eles.

A primeira pode parecer aquela reclamação clássica de professor que vem desde o tempo de Aristóteles, mas a verdade é que o atual “empoderamento” de diversos segmentos sociais (1) levou a uma arrogância meio burra por parte de muita gente (2). As pessoas não estão mais certas porque tem argumentos, mas porque pertencem a minorias ou a classes sociais. Talvez uma expressão dessa presunção seja a Web 2.0 e o monte de informação fútil, incorreta, redundante e plagiada que ela gerou (3).

A segunda é sobre o hábito de ler. Quantas vezes indiquei livros de divulgação científica dos mais variados assuntos aos alunos! Primeiro apenas indicando o nome, depois (ao ver aquela expressão de salva-tela nos olhos da platéia) levando os livros em sala de aula e permitindo que eles fossem folheados à vontade pelas turmas. O resultado disso: numa quantificação grosseira, devo ter tido o retorno de uns 12 alunos (se tanto) num universo de 3.750 alunos ao longo de 17 anos de docência. Isso dá uma marca de 0,32% de leitores estimulados. Ou, vendo pelo ângulo do copo “meio vazio”, 99,68% de desinteresse. Ou UM aluno para cada 300 (uma boa inspiração para fazer uma satira do filme “300″). Então creio que o professor Pierluigi está correto em uma de suas análises.

E por falar em leitura…

A entrevista de Vargas Llosa, como eu disse, está muito interessante e poética. Estes dois trechos foram os que mais gostei:

vargas llosa 1 - vargas llosa 1


vargas llosa 2 - vargas llosa 2

Tenho uma identidade grande com essas linhas, especialmente porque adoro escrever. E hoje, graças a uma grande amiga, Cláudia Liba, estou podendo publicar meus textos em uma revista.

Concluir o processo de criação não tem preço.

Minha última crônica publicada tem rendido reações muito interessantes, além de ser instrutiva sobre como se pode atrapalhar o processo de aprendizado e crescimento das pessoas com medidas ridículas e tacanhas. E eu acho que isso não é exceção. O endereço da minha última crônica na Versátil Magazine, para os curiosos:
http://issuu.com/versatil.magazine/docs/vm08_site

Esse texto foi republicado em um portal por Antonio Veras:
http://www.treinamentosepalestras.com.br/cursoseventos/rh-em-pauta/o-que-e-burocracia.html

E, para encerrar, duas frases bem humoradas e tocantes acerca do ofício de escrever (4):

    Escrevo porque não tive saúde para estudar engenharia”
MANUEL BANDEIRA


    Eu escrevi porque meus filhos cresceram e eu não tinha mais para quem contar histórias”

UMBERTO ECO

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(1) - Não é a primeira nem a principal referência sobre isso, mas foi onde li pela primeira vez sobre esse termo e esse fenômeno: “Ansiedade de informação”, Richard S. Wurman.

(2) - Tive a oportunida de comentar sobre isso em um artigo meu (ainda no prelo) da MICROBIOLOGIA IN FOCO: “Professor: obsolescência programada?”

(3) - Sobre o fato dela gerar também coisas boas, isso parece um truísmo que não faz o debate avançar um milímetro. Quase tudo na vida tem um lado bom e um ruim, assim como os extremos não são bons, etc.. Mas QUANTIFICAR o quanto de bom e de ruim existe em algo para se chegar a uma conclusão final ou determinar o TAMANHO da régua para se achar com precisão o meio termo, isso poucos se aventuram a fazer.

(4) - Retirei do livro “Por que escrevo?”, de José Domingos de Brito.