Arquivo de Maio de 2008

Já há tempos queria ter comentado essa surpreendente notícia.

No dia 05 de maio o Estadão publicou uma matéria em que três pesquisadores da Universidade de Ohio afirmavam que usar exemplos reais para o ensino da matemática (maçãs, trens, bolas, por exemplo) era pior do que usar uma abordagem exclusivamente abstrata (raciocinando através de símbolos abstratos). Os dados do estudo foram obtidos através de uma pesquisa controlada que seguiu as diretrizes consensuais do método científico.

Isso para mim foi uma absoluta surpresa. Sempre imaginei (e confesso que ainda tenho dificuldade de pensar diferente) que a utilização de exemplos reais fosse um recurso que ajudasse no aprendizado, tornando-o mais significativo. É claro que não se muda uma concepção com um único trabalho, e vamos precisar de novas investigações na mesma linha para confirmar esses dados.

Infelizmente o artigo integral não é acessível de graça (tampouco seu resumo); mas quem quiser a referência, aí vai o site da revista Science onde o artigo foi publicado:

http://www.sciencemag.org/cgi/content/summary/320/5875/454

Segundo reportagem da Folha de São Paulo de hoje (caderno Cotidiano), 57% das universidades privadas NÃO seguem a determinação do MEC para que um terço do corpo docente esteja em regime integral. Aqui vai a lista com as escolas que não seguem o que o MEC preconiza:

universidaderegimedetrabalho 1 - universidaderegimedetrabalho 1

Fonte: Folha de São Paulo
(observe o link na parte inferior da figura: www.folha.com.br/081296 Ele dá acesso a uma tabela completa com todas as universidades, inclusive as que atendem aos critérios do MEC)


A lei é de 1997, e dizia que o não cumprimento seria punido com o rebaixamento para Centro Universitário (com menos autonomia para abrir cursos). Até hoje nenhuma foi punida, apesar do descumprimento explícito e majoritário. E o mais interessante: de acordo com Dirceu Nascimento, diretor de Regulação e Supervisão da Educação Superior do MEC, “todas serão avaliadas. Existe a exigência de que a avaliação seja feita ao longo de dez anos“. DEZ ANOS… Acho que isso é algum tipo de mecanismo de “prescrição pedagógica” semelhante à prescrição de certos crimes: prolonga-se até o infinito os prazos de adequação até que a mudança não seja mais necessária ou até que uma nova lei mude tudo no papel para que na realidade continue tudo como dantes no quartel de Abrantes.

De acordo com a Folha de São Paulo de hoje, o peródico inglês British Medical Journal ganha versão em português. Lançada pela ArtMed, vai contar com um conselho editorial composto por médicos, a grande maioria da Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

BMJ - BMJ

Fonte: Folha de São Paulo

O site do BMJ em inglês pode ser acessado em http://www.bmj.com/

As aspas são minhas.

A listagem dos cursos com conceito ruim no Enade são as seguintes:

cursos de medicina - cursos de medicina

Fonte: Folha de São Paulo, 30 de abril de 2008 - Caderno COTIDIANO.

Levando-se em conta que a melhor prova de renúncia ao realismo seja o divórcio entre discurso e a prática, essa ameaça do MEC me lembra o “pai” da “revolução” do ensino privado nestes tempos de olímpicos índices econômicos e sombrios índices morais: o Ministro Paulo Renato. Depois de abrir a porteira para que virtualmente quem quisesse abrisse cursos superiores, ensaiou uma cruzada de rigor ao ameaçar o fechamento de alguns cursos de medicina no Estado de São Paulo. Não me consta que tenha obtido êxito. Mas o show de pirotecnia foi ótimo.

Essa é mais uma para a série “O picadeiro está ficando pequeno”.

Ontem no portal do Estadão, mais uma pérola para o colar que enforca o país:

Estamos praticamente beirando o terço inferior da escala (86ª posição). E, enquanto isso, aqui em São Paulo, indignados com a falta de ingressos para um jogo de futebol, torcedores se revoltam e entram em confronto com a polícia (http://www.estado.com.br/editorias/2008/04/30/esp-1.93.6.20080430.6.1.xml). Se uma imagem vale mil palavras, imagino que esta ilustre “magnificamente” a escala de valores do brasileiro médio.