Arquivo de Julho de 2007

Alexandre Lourenço

ATAQUE (LEGÍTIMO) À BLOGOSFERA

  • Artigo do caderno Ilustrada de hoje da Folha de São Paulo traz artigo interessantíssimo sobre o papel da Web 2.0 na cultura

  • Com o título “Ataque à blogosfera”, o jornalista Marco Aurélio Canônico joga no debate (finalmente!) a idéia de que a Web 2.0, na forma como está acontecendo, vem constituindo um poderoso ácido corrosivo sobre a cultura (no sentido nocivo, mesmo). A resportagem é baseada no livro do historiador britânico Andrew Keen - “The Cult of the Amateurs: How Today’s Internet Is Killing Our Culture”.

    andrewkeen 1 2 - andrewkeen 1 2

    Considero esse artigo excelente por vários motivos: primeiro porque finalmente a expansão do mundo virtual é colocada diante de efeitos colaterais, coisa rara num mundo jornalístico que cansa de fazer apologia indiscriminada e acrítica da rede mundial. Segundo porque coloca um autor com argumentos muito consistentes, diferente da tradicional posição conservadora que repudia o novo porque é novo. Ou seja, finalmente o debate avança (ou finalmente começa nestas terras).

    Considero que Keen pegou no nervo. A aparência de liberdade e participação está criando um verdadeiro “lixão” virtual com direito a urubus e catadores de restos. Como eu já discuti em postagens anteriores, o volume colossal de publicações sobre um mesmo tema já é um problema em si (excesso de informação). Mas isso poderia simplesmente ser efeito colateral não fosse um “pequenino” detalhe: qualidade e credibilidade dessa informação. Achamos ótimo que todos publiquem e comentem sobre todos os assuntos, mas qual é o valor disso? Ótimo para a democracia e para a psiquê de milhões de indivíduos, que se sentem participantes ativos de algo, massageando sua auto-estima. Mas… e como lidamos com a maioria avassaladora de material da Internet que contêm informações falsas, incorretas, inadequadas, desatualizadas ou confusas? Esse aspecto não pode ser ignorado e nem tampouco relativizado. Não considero isso mero detalhe ou conseqüência menor das incríveis chances novas que a Internet oferece. É algo bastante sério que contribui para o caos informacional e, conseqüentemente, para a manipulação das pessoas.

    Segue um trecho da entrevista concedida por Andrew Keen:

    Digitalizar0008 - Digitalizar0008
    Digitalizar0009 - Digitalizar0009

    Qual a diferença da mídia tradicional e de um blog? Ambos podem querer manipular (isso é algo que todos esquecem em relação aos blogs), mas a mídia tradicional possui uma carga de responsabilidade e CERTIFICAÇÃO que a força ao menos a respeitar alguns limites fundamentais. Um jornalilsta que queira manter a credibillidade (e o emprego) não pode anunciar que a terra é plana, mas nada impede que um blog o faça. Da mesma forma como você não compra uma casa sem se certificar que as fundações não foram roídas por cupins, a informação veiculada na rede deve ser averiguada e checada. E embora isso não seja tarefa fácil, é essencial se você não quer ser enganado.

    Alexandre Lourenço

    Lição de manipulação

    No Estado de São Paulo do dia 24 de junho, uma notícia do caderno Internacional chamou minha atenção:

    kremlin1 - kremlin1

    O miolo da notícia é a sucessão de Putin, presidente da Rússia. O mais cotado atualmente é Serguei Ivanov, vice-primeiro-ministro.

    Fala-se de seus concorrentes, de algumas futilidades (fã dos Beatles e leitor de romances policiais) e de seu perfil político, aparentemente mais linha dura que o de Putin. Nada excepcional, ainda mais se considerarmos as instabilidades típicas do mundo político e da Rússia em particular. Mas uma coisa me chamou bastante a atenção. Olhem este trecho:

    kremlin2 1 - kremlin2 1


    A frase de Serguei é muito interessante. Membro da KGB (o serviço secreto da antiga União Soviética), ele abre uma fresta sobre o tipo de treinamento que recebia. Não é muita coisa; metade composta de uma obviedade [”(…) ensinaram-me a não me destacar numa multidão (…) “], mas a outra metade carrega uma mensagem muito significativa:

    ” (…) e, em segundo lugar, a discorrer longa e profissionalmente sobre nada.”


    Ou seja, o famoso e relativamente inofensivo “encher lingüiça” era uma estratégia muito séria de um dos órgãos mais temidos e eficientes no mundo em matéria de manipulação e espionagem!

    Não acho isso um detalhe menor e tenho a impressão que a extensão desse tipo de estratégia vai muito mais longe do que podemos imaginar. Um exemplo clássico e contundente disso foi demonstrado, para a vergonha de um dos mais prestigiosos periódicos da área de humanas do mundo, por ALAN SOKAL. Ele escreveu, propositadamente, um artigo totalmente sem pé nem cabeça, cheio de frases difíceis e desconexas, recheado com centenas de citações que criavam uma névoa de autoridade. O artigo foi publicado na revista Social Text em 1996 e ainda ganhou um editorial elogioso! Uma excelente análise desse episódio pouco abonador sobre o clima reinante nas ciências humanas pode ser lido no ótimo livro de Michel de Pracontal, “A IMPOSTURA CIENTÍFICA EM DEZ LIÇÕES”.

    imposturas - imposturas


    Uma entrevista com Sokal acerca desse episódio pode ser lida em
    http://physics.nyu.edu/faculty/sokal/entrevista_USP.html

    E a página pessoal dele pode ser acessada em
    http://physics.nyu.edu/~as2/

    Toda essa discussão tem uma importância bastante grande quando se discute o binômio informação/manipulação. Quem não se lembra dos discursos ridículos e recheados de vazios dos acusados do mensalão? Na época, o material era tão farto que facilmente se chegava a duas ou três postagens POR DIA para comentar as estratégias de dissimulação e acobertamento deflagradas por deputados da base governista. Considerei esse o período mais sombrio de nossa história política, coroado com a reeleição dos envolvidos e do atual presidente (1). Isso mostrou que as técnicas empregadas funcionaram perfeitamente bem, embora não seja fácil apontar se elas foram pródigas em eficiência ou se os receptores foram pródigos em estupidez. Ou os dois (2).

    De uma maneira ou de outra, o picadeiro ficou pequeno para tanta vigarice e expôs essa questão central sobre a manipulação do homem pelo homem. Alguns pontos que me surgem de pronto sobre quais as estratégias comumente empregadas são:

    1. Repetir a mesma idéia várias vezes

    2. Usar uma linguagem difícil e hermética que transpire respeitabilidade

    3. Juntar retoricamente elementos sem relação alguma

    4. Concluir de onde não cabe conclusão alguma

    5. Desviar o assunto

    6. Usar de truísmos (obviedades ululantes) - “Ninguém é dono da verdade”.

    7. Ser monótono para cansar o ouvinte


    Isso não é nem a casca do conjunto de técnicas que podem ser usadas para deformar e encobrir os fatos, além de “criar” realidades inexistentes. Um livro que aborda de maneira excepcional essas estratégias e deveria ser leitura obrigatória em qualquer curso superior é o famoso COMO VENCER UM DEBATE SEM PRECISAR TER RAZÃO, de Arthur Schopenhauer, com comentários de Olavo de Carvalho.

    schopenhauer 1 - schopenhauer 1



    Como se pôde apreender pela frase do futuro sucessor de Putin, a dialética erística (3) parece ter elementos universais que transcendem os séculos e continuam funcionando.

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    (1) - Dos que presenciei, é claro. É muito difícil avaliar certos períodos apenas pela narrativa dos livros. Mas incluo o regime militar, que embora tenha sido uma época assustadora e de constante ameaça, pelo menos era identificada como tal e combatida. Bem diferente do momento atual, em que numa diabólica inversão, os manipuladores ostentam, sem vergonha alguma, os discursos mais abjetos e cínicos. E são aclamados. E eleitos.

    (2) - Há uma terceira hipótese, em grande parte verdadeira: conivência e cumplicidade por parte do eleitorado. Segundo ouvi de alguns eleitores, “Eles roubam, mas estão do nosso lado.” Acerca disso, faço duas perguntas: 1. O que significa “estar do nosso lado”? 2. Então os fins justificam os meios? O Nazismo começou assim.

    (3) - A arte de discutir de modo a vencer per fas et per nefas, ou seja, por meios lícitos ou ilícitos.