Ou seja, o famoso e relativamente inofensivo “encher lingüiça” era uma estratégia muito séria de um dos órgãos mais temidos e eficientes no mundo em matéria de manipulação e espionagem!
Não acho isso um detalhe menor e tenho a impressão que a extensão desse tipo de estratégia vai muito mais longe do que podemos imaginar. Um exemplo clássico e contundente disso foi demonstrado, para a vergonha de um dos mais prestigiosos periódicos da área de humanas do mundo, por ALAN SOKAL. Ele escreveu, propositadamente, um artigo totalmente sem pé nem cabeça, cheio de frases difíceis e desconexas, recheado com centenas de citações que criavam uma névoa de autoridade. O artigo foi publicado na revista Social Text em 1996 e ainda ganhou um editorial elogioso! Uma excelente análise desse episódio pouco abonador sobre o clima reinante nas ciências humanas pode ser lido no ótimo livro de Michel de Pracontal, “A IMPOSTURA CIENTÍFICA EM DEZ LIÇÕES”.
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Uma entrevista com Sokal acerca desse episódio pode ser lida em
http://physics.nyu.edu/faculty/sokal/entrevista_USP.html
E a página pessoal dele pode ser acessada em
http://physics.nyu.edu/~as2/
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Toda essa discussão tem uma importância bastante grande quando se discute o binômio informação/manipulação. Quem não se lembra dos discursos ridículos e recheados de vazios dos acusados do mensalão? Na época, o material era tão farto que facilmente se chegava a duas ou três postagens POR DIA para comentar as estratégias de dissimulação e acobertamento deflagradas por deputados da base governista. Considerei esse o período mais sombrio de nossa história política, coroado com a reeleição dos envolvidos e do atual presidente (1). Isso mostrou que as técnicas empregadas funcionaram perfeitamente bem, embora não seja fácil apontar se elas foram pródigas em eficiência ou se os receptores foram pródigos em estupidez. Ou os dois (2).
De uma maneira ou de outra, o picadeiro ficou pequeno para tanta vigarice e expôs essa questão central sobre a manipulação do homem pelo homem. Alguns pontos que me surgem de pronto sobre quais as estratégias comumente empregadas são:
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1. Repetir a mesma idéia várias vezes
2. Usar uma linguagem difícil e hermética que transpire respeitabilidade
3. Juntar retoricamente elementos sem relação alguma
4. Concluir de onde não cabe conclusão alguma
5. Desviar o assunto
6. Usar de truísmos (obviedades ululantes) - “Ninguém é dono da verdade”.
7. Ser monótono para cansar o ouvinte
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Isso não é nem a casca do conjunto de técnicas que podem ser usadas para deformar e encobrir os fatos, além de “criar” realidades inexistentes. Um livro que aborda de maneira excepcional essas estratégias e deveria ser leitura obrigatória em qualquer curso superior é o famoso COMO VENCER UM DEBATE SEM PRECISAR TER RAZÃO, de Arthur Schopenhauer, com comentários de Olavo de Carvalho.
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Como se pôde apreender pela frase do futuro sucessor de Putin, a dialética erística (3) parece ter elementos universais que transcendem os séculos e continuam funcionando.
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(1) - Dos que presenciei, é claro. É muito difícil avaliar certos períodos apenas pela narrativa dos livros. Mas incluo o regime militar, que embora tenha sido uma época assustadora e de constante ameaça, pelo menos era identificada como tal e combatida. Bem diferente do momento atual, em que numa diabólica inversão, os manipuladores ostentam, sem vergonha alguma, os discursos mais abjetos e cínicos. E são aclamados. E eleitos.
(2) - Há uma terceira hipótese, em grande parte verdadeira: conivência e cumplicidade por parte do eleitorado. Segundo ouvi de alguns eleitores, “Eles roubam, mas estão do nosso lado.” Acerca disso, faço duas perguntas: 1. O que significa “estar do nosso lado”? 2. Então os fins justificam os meios? O Nazismo começou assim.
(3) - A arte de discutir de modo a vencer per fas et per nefas, ou seja, por meios lícitos ou ilícitos.